No dia 26 de abril de 2017, ANTÓNIO ROSADO DA LUZ veio falar aos alunos da Secção Portuguesa do Liceu Internacional. Antes do encontro alguns (re)viram o filme de Maria de Medeiros, «Capitães de Abril», outros leram a informação que se segue sobre este Capitão que veio partilhar connosco o que viveu no dia da Revolução dos Cravos, onde estava, com quem estava, o que fez!
* 5 de Dezembro de 1973 : Reunião da Comissão
Coordenadora dos capitães na Costa da Caparica. « Quando saímos da
reunião, julgo que por mero acaso, ele [Vasco Gonçalves] veio de boleia comigo
e com o Rosado da Luz. Parámos em frente ao Contro Comercial Apolo 70 em
Lisboa, cerca das três da manhã, e ali estivemos até às seis horas, a levar uma
“seca” com as suas ideias da vulgata marxista ».
* Denúncia e desmontagem do « golpe
de Kaúlza de Arriaga », feita por Sousa e Castro « e os tenentes que [o] me acompanhavam –
Freire Nogueira e Rosado da Luz ». Eram
os interlocutores dos pára-quedistas « os quais, compreensivelmente, nunca
mais me viram com bons olhos ».
* Oficiais-estafeta transmitiam aos militares dispostos a revoltar-se
« a senha e contra-senha, as frequências de rádio, e a data/hora de
arranque da sua missão[1]. E foi isso, justamente, o que os
oficiais-estafeta foram encarregados de transmitir a partir de dia 23 de Abril
à tarde. Os oficiai-estafeta eram nove
(oito capitães e um major) : os capitães Pedrosa Afonso, António Torres,
Rosado da Luz, Veiga Vaz, Sousa e Castro, Candeias Valente, Lopes Francisco e o
major Luís Arruda. O contacto entre o oficial responsável do Movimento em cada unidade com
o oficial-estafeta « era no fundo a cavilha de segurança de todo o
processo ».
* Sobre o pronunciamento de Tancos : o capitão Rosado da Luz , por
sua vez, chama a atenção de que o que se passou não foi mais do que o reflexo
da luta de classes.
* Reunião no COPCON em pleno « Verão
Quente » :
Rosado da Luz convida Sousa e Castro para uma reunião de militares no Forte do
Alto do Duque. Para sua surpresa, Sousa
e Castro dá com dois civis : Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Sousa e
Castro foi-se embora. Não admitia o envolvimento de civis.
* 25 de Novembro de 1975 : « Há notícias de que o Forte de
Almada, sob o comando do capitão Rosado da Luz, estaria a preparar-se para
distribuir armas à população. Se tal se verificasse, daí a nada estaríamos no
meio de uma verdadeira guerra civil. Quando ligo para o Forte de Almada e chego
à fala com o meu camarada e amigo Rosado da Luz, a angústia e a inquietação com
que o faço são apenas superadas pela noção do que está am jogo. Disparei-lhe : Luz, entende, eu só estou a
dizer isto : não te vai passar pela cabeça que vais distribuir armas à
população de Almada, porque se fazes isso - disse-lhe assim mesmo – o
mínimo que apanhas é com os aviões em
cima !
Ele acatou imediatamente. Era um homem impulsivo, muito radicalizado mas enquanto militar conseguiu
perceber os contornos daquela situação e
as consequências de eventuais actos menos reflectidos.
Otelo referiu-me mais tarde que, logo que foi interpelado por Rosado da
Luz, que lhe deu conta da pressão de centenas de civis que à porta do quartel
exigiam armas, lhes deu ordens para não deixar sair uma única arma, mesmo que
para isso tivesse de usar a força. É
provável que tudo se tivesse passado assim, mas no final o importante é que a
paz civil foi salvaguardada ».
* [No 25 de Novembro] : « Quanto ao Forte de Almada a
situação esteve muito complicada, por fortes pressões da população (onde
o PCP tinha enorme influência, mas também a extrema-esquerda), que exigia
ao comandante da unidade, o capitão de Abril António Rosado da Luz, que
assumisse o comando da resistência aos Nove. Soube mais tarde que o Rosado
da Luz foi inclusivamente pressionado por marinheiros, para se assumir,
dado que teria todo o seu apoio (o comandante Sousa Santos ter-lhe-á
garantido que, se ele se assumisse, ele próprio assumiria o Comando Naval do
Continente). As pressões foram
tantas, nomeadamente da multidão que queria receber armas, que a certa altura o
Rosado da Luz só viu uma solução : mandou meter as armas na prisão da
unidade, o local mais seguro, pegou nas chaves da dita prisão e foi a Belém
entregar-mas. O que fez com que eu, apesar de todas as prisões que sofri, não o
tivesse mandado prender. O que lhe custou a desconfiança dos seus companheiros
do COPCON (o Rosado da Luz era um dos que Otelo chamava de “meus rapazes”)
pois os outros estavam presos e ele não. Várias vezes, ao recordarmos esses
acontecimentos, ele me diz : “pregaste-me a maior partida possível, ao não
me mandares prender…” ».
Elementos documentados nos livros dos « Capitães de
Abril » Sousa Castro e Vasco Lourenço, a saber :
* [Rodrigo Manuel Lopes de] Sousa e Castro, Capitão de
Abril, capitão de Novembro. Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2009.
* Vasco Lourenço, Do interior da
revolução. Entrevista de Maria Manuela Cruzeiro. Centro de Documentação
25 de Abril, Universidade de Coimbra e Âncora Editora, 1ª ed., Abril
de 2009.
[1] O oficial que ia revoltar-se sabia já qual o
ojectivo das suas tropas, pois tal tinha ficado acordado nas reuniões, que
Otelo tinha realizado até 22 de Abril.
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